Conversando com o Gugu



Matéria: Glauco(glauco@pesquesolte.com.br)
Fotos: Gugu (gugupescador@iconet.com.br)

Pesquesolte: Quando você começou a pescar?
Por volta do 7/8 anos de idade, pescando acarás e cascudos com linha de costura e alfinetes dobrados da minha avó no 1o. Canal da Praia Grande, onde a família tinha uma casa. Quando tinha 16/17 anos comecei a namorar uma jovem donzela cujo pai tinha uma lancha Cabrasmar e adorava pescar. O namoro durou pouco, mas virei companheiro de pescarias do pai dela e pelo menos uma vez por mês íamos corricar anchovas na ilha do Montão de Trigo e Arquipélago dos Alcatrazes. Vara de fibra maciça, colheres e plugs enormes e pesados e linha de aço... é isso mesmo de aço que era para as iscas afundarem bem... "tralhinha leve". Mas por falar em tralha leve logo após completar 18 anos e tirar carteira de motorista comecei a praticar uma modalidade de pesca que com certeza contribuiu muito para aumentar a minha paixão pela pesca esportiva e principalmente pela praticada com o uso das iscas artificiais, a pesca de trutas nos rios da Serra da Bocaina. Com uma varinha Mitchell de 1,5 m para iscas entre 2 e 8 g e um molinete também Mitchell modelo 308 entrava nos rios Funil, Bonito e Manbucada. De bermudas, botinas e polainas, descia longos trechos caminhando por dentro d' água, sempre que possível e arremessando spinners e pequenos "rapalinhas". Peguei muitas e muitas trutas e fiquei fanático pelas artificiais. O conjunto usado nessas pescarias esta aposentado e pendurado na minha frente aqui na parede do escritório e toda vez que olho para ele sinto muitas saudades daqueles bons momentos.

Pesquesolte: O que você fazia antes de trabalhar com a pesca?
Após trabalhar durante cerca de oito anos numa empresa de reflorestamento - o que me permitia pescar dourados uma vez por mês na fazenda que ela tinha em Água Clara MS - mudei em 1077 para Ubatuba aonde montei a pizzaria Perequim, na praia do Perequê-Mirim, o que me permitia pescar robalos e outros no mínimo (menos em janeiro) três dias por semana.


Pesquesolte: Como foi o seu percurso até chegar à TV?
Em 1981 mudei para Taubaté SP aonde montei a pizzaria "Pizza Nostra" (que continua firme e forte até hoje) e em 1989 criei a PESCA POST em sociedade com Marcos Migliano, que conheci em Ubatuba logo dos primeiros dias do Perequim e que até hoje é um grande amigo e companheiro de memoráveis pescarias.
A PESCA POST era um catalogo de venda de material de pesca pelo correio e seu primeiro numero foi encartado na revista Aruanã. O segundo numero editado em 1990 já foi impresso no formato de revista e para divulgar o catalogo comessamos a escrever para a revista Troféu Pesca em troca de espaço publicitário para divulgar o catalogo.
A essa mesma época a A.P.I.A. - Associação dos Pescadores com Iscas Artificiais com sede na cidade de São Paulo estava a todo vapor, divulgando essa maneira esportiva e apaixonante de pescar e paralelamente pregando a idéia do "pesque e solte" e foi justamente no intuito de dar orientação aos interessados na modalidade e também para passar o recado do "pesque e solte" que alguns amigos, sócios fundadores da A.P.I.A. criaram a "ASK Vídeo" e produziram "INTRODUÇÃO A PESCA COM ISCAS ARTIFICIAIS", primeiro vídeo comercial voltado a pesca esportiva do País, para o qual fui convidado e tive o orgulho e a honra de apresentar.
Após alguns meses do vídeo lançado, fui procurado pelo Sr. Walter Uchoa da Rede CNT de TV, para ser o apresentador do programa Pescadores do Brasil que seria lançado brevemente.
E foi ai que eu fui parar na "telinha".


Pesquesolte: Quais os seus peixes preferidos?
Robalos, trutas, matrinxãs e tucunarés.


Pesquesolte: Qual a sua modalidade de pesca preferida?
Fico dividido entre as iscas artificiais (com molinete ou carretilha) e o Fly.


Pesquesolte: Qual a pescaria / peixe que mais marcou?
O robalão que peguei na boca do rio Puruba em Ubatuba logo nas primeiras gravações do programa Pescadores do Brasil.


Pesquesolte: Quando você começou a pescar e soltar?
Quando mudei para Ubatuba e descobri que pescar robalos pevas nos pequenos rios da região era um desafio sensacional, pois dependia muito da técnica empregada em cada pescaria. Isso despertou em mim um respeito pelos peixes que inúmeras vezes eram os que venciam o desafio. Daí em diante nas raras vezes que mato um peixe para comer sinto um certo remorso porque no final das contas estou acabando com quem me dá mais prazer na água do que no prato.

Pesquesolte: O que é a pesca esportiva na sua opinião?
É aquela que visa unicamente a satisfação interior do pescador. Satisfação essa que pode ser atingida ao final daquele arremesso perfeito, de uma isca bem trabalhada, de um ataque espetacular do peixe cobiçado, da beleza e paz dos lugares aonde vamos ou até simplesmente ficando horas e horas apenas admirando, ou organizando nossa preciosa tralha de pesca.


Pesquesolte: Na sua opinião, qual a importância da pesca esportiva socialmente e economicamente?
Vou acrescentar o item "ecologicamente" e responder que pelo muito que tive oportunidade de constatar ela é extremamente benéfica e desejável.
A pesca esportiva, além de gerar empregos em regiões distantes e quase sempre sem nenhuma opção de renda a não ser pelo extrativismo - que nem sempre é feito de maneira racional - integra socialmente as pessoas que passam a trabalhar com ela na medida em que leva até as mesmas novos conhecimentos que sempre são úteis para quem - na maioria das vezes - teve poucas oportunidades de estudo e contato com culturas diferentes. Entre outros benefícios essa situação acaba criando em grande parte dessas pessoas uma maior consciência ecológica pelo simples fato de que acabam descobrindo através das informações trazidas de fora que a natureza não é inesgotável e que para continuar gerando renda precisa ser tratada com sabedoria.

Pesquesolte: Qual a sua opinião sobre os tamanhos mínimos e as cotas atuais? E sobre a idéia de definir tamanhos máximos e proibir a pesca profissional em águas interiores?
Na minha opinião o tamanho máximo é mais importante que o mínimo porque dá uma chance a mais de vida aos troféus e bons reprodutores permitindo assim que os mesmos possam procriar durante anos transmitindo a sua genética aos descendentes. Uma coisa é certa: nenhum fazendeiro mata touro reprodutor para fazer churrasco.
Além do mais - e para rebater o que ouvi certa vez de um "guru" do IBAMA que queria me convencer de que peixes depois de muito grandes não reproduzem mais e por isso poderiam ser mortos - é importante ter sempre em mente que o turismo da pesca vive em função do "Troféu", pois é certo que nenhum pescador esportivo vai querer gastar
centenas ou milhares de reais em viagens para qualquer lugar que seja se for pescar apenas "peixinhos".
Quanto a cotas, sou totalmente a favor de que - dependendo da espécie e do local - sejam ZERO.
No que tange a pesca profissional em águas interiores sou visceralmente contra e acho que estamos com décadas de atraso na técnica e no fomento de criação de peixes em tanques rede, atividade que sem dúvida além de preservar o peixe selvagem em prol da pesca esportiva e do turismo atrelado a ela, daria uma fonte de renda muito mais segura e estável aos pescadores profissionais de hoje na medida em que se tornassem criadores de peixe.
Se pararmos para pensar, que hoje em dia uma das únicas fontes de proteína animal que chega a nossa mesa ser ter sido criada pelo homem é exatamente "o peixe", vamos concluir sem muita dificuldade que alguma coisa está errada e que se as coisas na mudarem rápido o futuro do nosso esporte estará seriamente comprometido.


Pesquesolte: Qual a sua opinião com relação às espécies exóticas, por exemplo: o tucunaré e o black-bass no sudeste?
Sou totalmente a favor pelo simples fato de que tucunarés, black-bass, corvinas e principalmente tilápias (que muitos já acham que é espécie nativa), só encontram condições ideais para sobrevivência na região porque alteramos de forma drástica o ecossistema primitivo transformando rios majestosos como Tietê, Grande e Paraná apenas para citar alguns, em uma sucessão de represas, habitat inviável para a grande maioria dos peixes que antes viviam nesses rios.
Vou mais longe, se dependesse da minha vontade eu já estaria pescando dourados (sem duvida um dos mais nobres representantes da nossa fauna ictiológica) em regiões como do alto Araguaia, por exemplo, e tendo ainda a enorme felicidade de saber que eles estariam finalmente livres da extinção.
Os Profetas do Apocalipse provavelmente iriam dizer, assim como já o fizeram em relação ao tucunaré - "o comedor de criancinhas"- que o dourado iria acabar com a fauna da bacia Araguaia / Tocantins. Para mim isso é pura balela e se assim fosse o Paraíba do Sul - onde o dourado foi introduzido à cerca de quarenta anos atrás - não teria nos dias de hoje um peixe sequer.
A grande verdade e que enquanto ficamos discutindo o tema de maneira apaixonada e sem nenhum embasamento cientifico, os americanos estão pescando tucunarés (nossos tucunarés) na Flórida.


Pesquesolte: Para muitos pescadores, nossa legislação é muito confusa e às vezes contraditória. Qual a sua opinião a respeito?
Concordo plenamente, acho que ela carece de conhecimento, estudo e principalmente de bom senso.
Em se considerando a vasta extensão territorial do nosso País e a enorme diversidade das bacias acho que o mais lógico seria termos uma legislação mais setorial que fosse orientada por normas gerais de âmbito federal ou estadual, mas que tivesse autonomia para decidir sobre regras especificas para locais específicos.
Imaginemos uma represa qualquer na região sudeste, por exemplo, que banhe um numero x de municípios. Esses municípios criariam uma comissão gestora da pesca naquelas águas que passaria a ser denominada como uma zona preferencial de pesca esportiva e de acordo com os suas pesquisas e levantamentos aumentaria ou diminuiria cotas, instituiria a captura e devolução obrigatória para determinas espécies em determinadas épocas ou até de todas as espécies pelos prazo de tempo que fosse considerado ideal para reposição dos estoques e etc.
No modelo imaginado a fiscalização da pesca nesses locais ficaria a cargo desses municípios e conseqüentemente a licença de pesca do IBAMA poderia ter seu valor bastante reduzido, por estar livre do pesado ônus da fiscalização e sendo a arrecadação auferida, dividida entre união, estados e os municípios integrados ao projeto. Em contrapartida a redução da licença federal (IBAMA) cada uma dessas zonas preferenciais cobraria uma pequena licença adicional para permitir a pesca na sua área.
O valor arrecadado teria obrigatoriamente uma parte destinada a estudos e fiscalização sendo que o saldo restante seria sem duvida o maior incentivo para que esses municípios passassem a ver a pesca esportiva de uma maneira completamente diferente da que é vista hoje pela grande maioria deles.
No entanto o que temos hoje é bem diferente e um bom exemplo é o fechamento "geral" da pesca na época da piracema. O IBAMA decreta que os peixes vão procriar a partir de 1o. de Novembro, independentemente das condições climáticas (nível de água, chuvas atrasadas ou adiantadas etc...) de determinada região naquele ano e pronto... os cardumes estão salvos. Acho que eles ainda não se deram conta de que peixes que forem capturados (e mortos) dias, meses ou a qualquer momento antes da data de fechamento da pesca não irão procriar nunca mais... com ou sem proibição.

Pesquesolte: Quais os seus ídolos (referências) na pesca?
- Os Grandes Professores (infelizmente ambos já falecidos);
Antonio Faria e Caetano Adamo.
Com o primeiro aprendi a técnica de arremesso e do trabalho das iscas artificiais e com o segundo descobri o prazer e aprendi toda a logística necessária para os inúmeros acampamentos selvagens que já fiz ao longo da vida.
- O pescador que mais alavancou e que mudou a imagem (para muito melhor) da pesca esportiva no País;
Rubéns de Almeida Prado - "Rubinho"
- O pescador com maior técnica
Nelson Nakamura - "Nelsinho"
- O pescador com maior cultura geral relacionada ao tema.
Roberto Veras - "Betão"
- O empresário mais dedicado do setor que a mais de 20 anos fabrica iscas artificiais perfeitas para os nossos peixes.
José Elias Abdalla - O "Zézito" das iscas Borboleta.

Pesquesolte: Quais dicas você daria para um pescador iniciante?
Viver a pesca esportiva como algo muito mais importante, sério e excitante do que simplesmente capturar peixes.
Pense nisso: não importa quantos peixes você capturou, o que realmente importa é se você sentiu que pescou bem.

Pesquesolte: Quais os seus projetos / atividades atuais?
Voltar a escrever para a revista Pesca & Cia. e participar do projeto de um novo programa de TV também relacionado a ela.
Também estou trabalhando na organização de um grande torneio de pesca ao Tucunaré que será realizado na represa de Paraibuna com inicio previsto no mês de junho e encerramento no final de novembro.
A partir de julho também estarei dando inicio as atividades da Pousada Rio Iriri no Pará, que montei no ano passado em parceria com mais três amigos. Os que tiverem interesse em conhecer podem acessar o site: www.brazil-sportfishing.com

Pesquesolte: Quais são os seus planos para o futuro?
Continuar pescando o máximo de tempo possível.




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